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29 de ago. de 2009

INFINITO / Grandes Matérias - PARTE III


Um rei latino

Para Ashe, um dos maiores e mais assíduos pesquisadores sobre o tema, existiu um Artur histórico e o nome dele é Riothamus, versão latina do título bretão "Rigothamus", que quer dizer rei supremo. A melhor evidência de que Riothamus realmente existiu é uma carta do prefeito de Roma em torno de 470. "Esse era apenas um título, mas alguns relatos de época se referiam a ele como Artur, que poderia ser seu nome de batismo", diz Ashe. Riothamus cumpre alguns requisitos para ser aceito como Artur: ele participou de campanhas militares na região que hoje corresponde ao País de Gales, fato também atribuído ao Artur das lendas, e lutou na guerra contra os invasores da Bretanha.

Mas se esse fosse o nosso homem, Artur teria nascido antes do que se imagina, durante o domínio romano. Ele teria sido educado, falaria latim, e poderia ter sido um rei de fato, não apenas um líder do período conturbado que se seguiu.

Sabe-se muito pouco sobre Riothamus, mas um evento famoso ligado a ele foi o envio, a pedidos do imperador, de um exército de 120 mil homens para ajudar a defender Roma contra invasores visigodos. Tudo indica que Riothamus tinha uma aliança com Roma, um sinal claro de seu poder, mas certamente o evento não condiz com a imagem de um líder disposto a defender a Bretanha a qualquer preço.

A tese de Ashe é instigante, mas está longe de ser consenso. Diante de tantas incertezas e da falta de material histórico confiável, o renomado historiador David Dumville, também da Universidade de Cambridge, exortou a hipótese do colega, e fez um apelo para que todos os historiadores abandonassem o assunto por completo. O pedido funcionou e, nos últimos 20 anos, praticamente nenhum historiador da academia se aventurou a descobrir a identidade secreta do rei.

A Batalha de Badon foi o evento fundador do mito de que um líder bretão voltaria para unir todos os clãs contra os invasores. Se Artur esteve lá, jamais teremos certeza. No entanto, sabemos que depois dela, as lendas sobre esse guerreiro só aumentaram.

Em um raro vestígio reconhecidamente histórico datado do século 6 - cerca de 100 anos depois de Monte Badon -, o livro De Excedio et Conquestu Britanniae ("A Destruição Britânica e Sua Conquista", sem versão em português), escrito por um monge chamado Gildas, descreve a Bretanha como um país, subjugado pelos saxões. O religioso protesta contra os líderes locais, que faziam alianças com os estrangeiros para enfrentar escotos e pictos do norte, o que acabou abrindo espaço para a invasão. No fim, ele clama pela volta do guerreiro que havia vencido a Batalha de Badon. O único detalhe é que o nome desse líder não era Artur, mas Ambrósio Aurélio.

Artur mesmo, com esse nome, só apareceu no século 9, num relato conhecido como Historia Brittonum (História dos Bretões, sem versão em português) e atribuído a outro monge: Nennius. Ele conta 12 grandes vitórias de um líder corajoso e inteligentíssimo chamado Artur, que teria colecionado vitórias sobre os saxões, culminando com o triunfo em Monte Badon.

Na década de 70, lingüistas e historiadores reviraram a obra de Nennius e não restou dúvida para ninguém de que ela é baseada no texto de Gildas. No entanto, a obra de Nennius apresenta novos componentes retirados de lendas celtas e galesas.

Ele conta, por exemplo, que em uma batalha, Artur teria matado 940 inimigos com um só golpe. Essa era uma forma tradicional nas narrativas celtas: incluir feitos obviamente inverídicos fazia crescer a fama do guerreiro. A maior novidade acrescida por Nennius, o nome Artur, também tem uma referência na mitologia celta: uma coletânea de lendas sobre antigos heróis galeses chamada Mabinogion fala de um líder chamado Artur.

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