
O rei e sua corte
No século 12, seis séculos após o período em que teria vivido, Artur finalmente foi promovido de líder guerreiro a rei. A transformação aconteceu na obra Historia Regun Brittoniae ("História dos Reis da Bretanha", sem tradução para o português), do clérigo Geoffrey Monmouth.
Usando as fontes de que dispunha, como os escritos de Gildas, a tradição oral bretã e gaulesa e muita imaginação, Geoffrey fez o impossível: traçou a genealogia de todos os reis da Inglaterra desde 1100 a.C. Entre eles, Artur despontou como um dos mais importantes monarcas da Bretanha.
Um rei deve ter uma rainha e Artur ganhou a companhia da Gueneviere e um castelo, localizado em Tintegel (aquele que foi localizado em escavações arqueológicas, na década de 70). Misturando fantasia e história, Monmouth vai criando, um a um, os ingredientes da lenda: Artur ora aparece lutando contra monstros e gigantes, ora é mortalmente ferido e retira-se para a ilha de Avalon, onde estaria situado outro mundo. Também é mencionada a fonte mágica de seu poder, uma espada chamada Caliburn. O mago Merlin também fez sua estréia: foi ele quem profetizou o nascimento do rei.
O livro de Monmouth transformou o guerreiro bretão em príncipe da cristandade: corajoso, justo, respeitado e invencível. Seu objetivo, segundo Adriana Zierer, era legitimar o poder dos reis ingleses. A obra teve tanta influência que por 600 anos foi considerada a versão oficial da história britânica.
Outra proeza foi ter transformado aquilo que os franceses consideravam um amontoado de histórias sem pé nem cabeça produzidos por bárbaros irracionais em algo que viria a ser uma das maiores fontes de inspirações para os artistas franceses. A "História dos Reis Bretões" deu origem a uma proliferação de romances conhecidos genericamente como "matéria da Bretanha".
Na França, essa moda daria um novo impulso ao reinado de Artur.Chrètien de Troyes escreveu cinco livros sobre o rei e sua corte, nos quais introduziu personagens como os cavaleiros Percival e Lancelot, a mesa redonda em volta da qual se reuniam, o Graal e o castelo de Camelot.
"A adoção de Artur pela literatura francesa lhe deu um certo refinamento de costumes, com a introdução de conceitos como a civilidade, o casamento e a fidelidade", afirma Teresa de Queiroz, historiadora da Universidade de São Paulo. Outra novidade foi que os cavaleiros tornam-se os personagens mais atuantes.
O rei deixa de se envolver nas lutas e aventuras, sendo consultado apenas para julgar a situação ou dar a palavra final. "Isso reflete muito bem o jogo de poder na época, onde o monarca começava a se fortalecer e a nobreza, sentindo-se ameaçada, tentava se reafirmar", afirma a historiadora da USP.
Para ela, a Inglaterra precisava de um mito fundador e de um herói, assim como a França tinha Carlos Magno. Se esse herói era real ou não, não era tão importante. Mas vida na corte não parece ter feito bem ao nosso herói e Artur, o guerreiro bretão, o nobre cavaleiro, torna-se o marido traído.
Gueneviere mantém um romance com Lancelot. Mas a infidelidade da rainha é apenas um ponto menor (e menos importante) do tratamento que Artur recebeu da literatura francesa. Para viver na França, maior país cristão da época, o rei passaria a lidar com a idéia de pecado, valores morais e uma conduta casta.
A história de Artur passa por um processo de cristianização. Seu escudo passa a ostentar a imagem da Virgem Maria e o graal, um objeto sagrado na mitologia celta, foi transformado no cálice usado por Jesus Cristo na última ceia e "Há, ainda, uma clara associação entre a espada, fonte da força de Artur com a cruz, origem do poder da monarquia", afirma Teresa.
Só em 1470 foi publicado o romance que daria ao rei Artur seu acabamento final, que conhecemos hoje. Le Morte d`Arthur ("A Morte do Rei Artur", sem versão em português), de Thomas Malory, reuniu todos os elementos anteriores para produzir uma narrativa coerente, onde todas as versões se encaixavam para dar aos britânicos o seu herói. O que ficou, afinal, foi um homem valoroso, de inegáveis força e senso de justiça. É como Artur vive no imaginário de seu povo e acabou sendo assim no mundo todo.
Créditos:
Por Giba Stam
Eber Evangelista
Fonte: Publicado originalmente em História edição 1 - julho 2003
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