
O guerreiro bretão
Desde o abandono das legiões romanas, os bretões vinham sofrendo derrotas e o avanço anglo-saxão parecia irreversível. Se haveria um herói na história desse povo, era uma boa hora para ele aparecer. Isso teria acontecido em 517, na batalha do Monte Badon, na qual os bretões conseguiram uma vitória decisiva contra os invasores.
De fato, a arqueologia comprova que na época que sucede a batalha, as invasões na Bretanha diminuíram e as tribos puderam desfrutar de uma certa paz que duraria algumas décadas. "Se Artur existiu, ele provavelmente combateu em Monte Badon. A lenda arturiana se remete ao mito da resistência e ao desejo de unificação. E a batalha em Badon é o único momento histórico comprovado em que isso de fato ocorreu", diz Adriana Zierer, historiadora da Universidade Federal Fluminense. Essa é a primeira coincidência entre mito e história.
Mas o certo é que o Artur de Monte Badon seria completamente diferente daquele que conhecemos pelos livros e filmes. "Os guerreiros da época eram extremamente violentos. Suas armas eram as espadas de ferro - uma curta e leve, outra pesadíssima e com quase um metro de lâmina - , machados rombudos e escudos.
Os combates eram travados no chão, em meio a um corre-corre danado. As lutas eram corporais e rápidas: a estratégia era acertar uma forte pancada na cabeça ou nas costas do inimigo e derrubá-lo.
Aí, a vítima não tinha mais chance: com uma espada mais curta e leve, ela era cortada preferencialmente na garganta, e deixada para sangrar e morrer" conta Ricardo Costa, historiador da Universidade Federal do Espírito Santo. Os celtas usavam cavalos para tração, mas raramente para montaria. Nas batalhas, isso simplesmente não ocorria.
Os combates eram comuns na Bretanha decadente do século 5. O padrão de vida proporcionado pelo Império Romano, com construções de pedra e até aquecimento central, foi decaindo. A vida era extramamente rústica e as estradas que ligavam as cidades foram estragando, isolando as tribos.
Os bretões não tinham unidade social ou religiosa: os clãs pouco se visitavam, não celebravam datas sagradas e mal comerciavam entre si, com exceção de trocas envolvendo cereais, roupas e calçados de couro. Viviam desconfiados de seus vizinhos, em clima de instabilidade política.
As alianças entre os clãs eram raras as disputas por território, ou qualquer outra diferença, geralmente se resolviam no braço. A maioria das pessoas eram camponeses vivendo uma vida muito simples, em casas de pau-a-pique. As moradias tinham um buraco no teto para sair a fumaça e o fogo era usado tanto para cozinhar carnes e cereais quanto para esquentar o ambiente. A faca era praticamente o único utensílio - garfos e colheres eram raros - e um chifre oco era usado como copo para beber.
A elite que escapava dessa pobreza era composta por alguns bretões romanizados, que desfrutavam de um conforto um pouco maior, vivendo em habitações fortificadas de pedra e de madeira, que chegavam até a importar produtos finos como o vinho. Era nesse grupo de privilegiados que se formavam os guerreiros, e Artur teria vivido entre eles, onde aprendeu a usar a espada e a lança.
Essas são as poucas provas que a arqueologia conseguiu para reconstituir o mundo arturiano. A maioria dos artefatos do período, como objetos de madeira e tecidos, se decompuseram nos pântanos da região e a única coisa que sobrou mesmo foram os buracos da fundação das casas.
No século passado houve um grande esforço para descobrir alguma coisa que comprovasse o mito de Artur. Em 1930, o arqueólogo Raleigh Radford, em missão oficial patrocinada pelo Ministério Britânico, escavou o Castelo de Tintegel, em Northern Cornwall, a 200 quilômetros de Londres.
Acreditava-se que aquele seria o local onde Artur nascera. As pesquisas confirmaram que o local havia sido uma fortificação no século 6. Foram encontrados potes e vasos de cerâmica importada, indicando que se tratava de um raro entreposto comercial. "Depois de 20 anos de trabalhos, a arqueologia não conseguiu provar que Artur foi concebido ali, mas mostrou que foram usados fatos reais na narrativa sobre ele", afirma Geoffrey Ashe, historiador da Universidade de Cambridge, Inglaterra, e autor do livro A Descoberta de Rei Artur.
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